sábado, 13 de abril de 2013

Trásdaponte - Ida à FESTA

ESTÓRIAS COM GENTE DE TRÁSDAPONTE

( IDA À FESTA )

                                               De   Ângela Piedade



Não me recordo de ter perdido nenhuma festa do Avante, a não
ser um ano em que estava de férias no Algarve e ainda hoje me
censuro de não ter apanhado o comboio para Lisboa, pois quando
os meus pais me relatavam o que se ia passando na festa, eu só
dizia para comigo:
-Bolas,o que é que eu estou aqui a fazer?
Nem à praia me apetecia ir,sabem,aquela sensação de que estamos
num lugar mas que a nossa cabeça está noutro,como se o corpo
não me pertencesse... Mas serviu-me de emenda, no ano seguinte
foi a mesma coisa, a festa do Avante calhava sempre quando
estava no Algarve,mas desta vez a história não se repetiu,peguei
no meu filho e viemos de comboio para Lisboa,onde os meus
pais nos esperavam. E a partir daí nunca mais falhei uma festa.

Dias antes, já começava o alvoroço e a excitação da festa.

- Compras-me a EP pai? Vou ficar o fim-de-semana no Seixal e
levo o Jaime, palavras mágicas para os meus pais, não quero
perder nenhum dia, não me esquecer de levar os ténis e um panamá.


E como eu tenho saudades dessa alegria de estarmos todos juntos
na festa.No dia da abertura chegávamos sempre uma hora antes,
arranjar lugar para o carro não era tarefa fácil,bebíamos qualquer
coisa num café próximo e dávamos uma voltinha a ver a feira
que se instalava nas imediações da Festa, mas faltando ainda
algum tempo antes da hora prevista da abertura, já estava o
meu pai a dizer ansioso:
-Vamos lá embora que está quase abrir,corríamos queríamos
ser os primeiros, uma Festa aguardada um ano inteiro e que
estava prestes a concretizar-se!
E aos primeiros sons da música já lá dentro não falávamos,
emocionados, só o meu filho fazia perguntas, não recordo
uma festa do Avante em que o meu pai não se emocionasse,
aquele primeiro momento era mágico e as lágrimas que ele
tentava esconder, corriam-lhe pela face.

-Pai, vamos à cidade internacional! Dizia eu para disfarçar
e fazer de conta que não o via a chorar. E resultava, com
alegria percorria os pavilhões de muitos países com coisas
lindíssimas, esculturas angolanas e moçambicanas, os
trabalhos embutidos em madrepérola dos palestinianos...
enfim coisas que nunca mais acabavam e que nos fascinavam.
E era obrigatório, fazia parte do nosso ritual, na abertura
jantarmos no pavilhão da Palestina as famosas kebab, havia
sempre fila. Sentavam-se numa mesa e eu ia buscar a comida,
todos os anos fazia isto e já era conhecida dos palestinianos,
pessoal bem simpático que estudava Medicina em Lisboa.
 


Encontrávamos amigos por todo o lado, que convidávamos
para a nossa mesa e assim punha-se a conversa em dia, com
música ao vivo e jovens muito jovens...
Nesse ano houve bienal de pintura e eu, toda orgulhosa, por
os meus quadros estarem lá, seleccionaram-me dois, o
meu pai tinha o seu livro "Memórias Escolhidas" em exposição
com os autores locais e à venda na livraria, uma tenda enorme.
Sentíamo-nos duas estrelas de papo inchado quando as pessoas
gostavam das nossas coisas. Mas mesmo sem quadros e sem
livros, a festa era para nós fantástica, melhor, maravilhosa!
Cansava um bocado, principalmente quando estava calor, mas
lá arranjávamos um lugar na relva... com tantos espectáculos
para ver, a noite era nossa...!
Amanhã estarei lá com a minha mãe, algum tempo antes da
abertura, quero ser das primeiras e o meu pai irá comigo!

                                                          Ângela Piedade


E Trásdaponte aqui tão perto
           

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