segunda-feira, 6 de julho de 2020

         INAUGURAÇÃO DO PAVILHÃO  DESPORTIVO
                    LEONEL FERNANDES  (  NHÉU  )

Foi inaugurado no dia 29 de Junho de 2020 o Pavilhão Desportivo
Leonel Fernandes, no local, onde exactamente há cerca de 70 anos,
o Nhéu e outros amigos calçaram pela primeira vez um par de patins.
Homenagem merecida, a um dos melhores hoquistas do nosso país. Nascido e criado em TRÁSDAPONTE 
Fachada principal

Fachada principal com varandim

Zona posterior com parque de estacionamento

Lateral com balneários

Frente e estátua

Estátua

Placa identificativa

Presidente da Câmara discursando

Presidente da Associação CRIAR-T

Leonel recebe uma réplica da estátua

Leonel posa com o escultor da estátua
que está à sua direita

Entrega de diplomas

Grupo de antigos companheiros hoquistas

sexta-feira, 3 de julho de 2020


               UM  CONTRIBUTO  PARA   A  HISTÓRIA  DA MARCHA DAS CANAS

Será que?
Será que a nossa Marcha das Canas tem alguma coisa a ver? O que me têm dito é que ela se terá realizado pela primeira vez nos anos quarenta; o que é compatível com a ideia de um “mimetismo” importado de Lisboa, será? Eu conto.
Partilho a informação que li num texto de Filipe Luís no último número da revista Visão dedicado à maquiavélica personagem do “Estado Novo” de nome António Ferro. A dado passo, a propósito de ele ser considerado um autor de marketing político avant-la-lettre (ao serviço da propaganda do novel estado fascista), dando-se como exemplos a criação do Galo de Barcelos na sua actual e turística versão, e da “invenção” das Marchas de Lisboa, vem escrito, o que mais nos pode interessar, a propósito destas marchas dos bairros populares lisboetas. Transcrevo: … a coreografia das marchas, que são promovidas e institucionalizadas por António Ferro, é inventada, em 1932, por Leitão de Barros (realizador de filmes) e, depois adotada pela Câmara Municipal de Lisboa. Hoje, acredita-se que a tradição vem de tempos imemoriais…
No mesmo artigo se escreve: … O que se fazia, em junho, nos bairros populares de Lisboa, desde o tempo de D. Maria I (reinou de 1777 a 1815) era uma “ronda dos chafarizes”, onde as pessoas iam, em fila, lavar a cara, depois de arraiais e de cegadas.
No Seixal, na nossa “Sociedade Velha” amanhecia-se para o dia 29 de Junho, de S. Pedro, depois de uma noitada de “arraial de uma espécie de cegadas” e ia-se lavar a cara à Quinta Grande, em marcha, e com música de acompanhamento, e regressava-se com as toalhas dependuradas das canas arrancadas nas quintas. De certeza que não se começou no tempo da rainha, mas estava-se tão perto de Lisboa e tanta gente vivia e se conhecia de um lado e outro do rio…

Dias de meio de junho de 2020,  Eduardo Palaio

segunda-feira, 23 de março de 2020


 De um Seixalense ausente um poema em tempo
                               de peste

                   
                      QUARENTENA

O sol entra-me pela janela do quarto dos filhos
 Ausentes noutras paragens
Da rua vem o silêncio ensurdecedor do vazio
Da cozinha vem o ruído do almoço em preparação
Na televisão correm notícias e imagens
No sofá adormecem pensamentos
Na secretária do computador
Desenho figuras, rascunho poemas
Faço a lista dos mantimentos
Percorro o passado, afasto a solidão
Mitigo o vírus em modo internet
Interajo no facebook, ligo o skype
Atendo o telemóvel, clico no whatsapp
Converso, leio um livro, a tarde avança
Por entre dúvidas e nostalgia
A noite entra-me pela janela da esperança

Amanhã é outro dia.

Júlio Mira

domingo, 22 de março de 2020

                                                           WhatsApp

                                   Uma leitura para os tempos de reclusão


Acorda quando o fim da noite espreita o começo do dia. A paisagem descobre-se como se houvesse no exterior um abat-jour, mal atarraxado, descaído para o lado esquerdo da posição onde tem os olhos. Vive sozinho, no n.º 26 da Av. Marginal, no Seixal. Dorme num beliche que montou na sala que se abre para o amplo horizonte.
Agora a luz transporta fulgores de amarelo, à medida que se rompe o horizonte do Montijo e de Alcochete, por entre o violeta e o anil até atingir Lisboa. Acende-se um semicírculo na cúpula do Panteão, depois clareia-lhe uma empena do mesmo lado, de seguida o torreão da Igreja de São Vicente de Fora. De caminho o sol ilumina o Miradouro de Santa Luzia, as Portas-do-Sol, o alto da Graça. Nos bastidores ainda é noite: Fanhões, Lousa, Malveira, a serra.
Faróis de viaturas riscam o que sobra da noite e iluminam os primeiros marchadores: uns correm felizes só por isso, outros fazem caminho para o horário do primeiro ferry do dia. Gente corajosa que em tempos de “peste” se vai misturar numa qualquer multidão, uns de máscara outros de luvas, alguns completos. Um parece-lhe ter a cabeça escondida num equipamento de mergulho: vê-se o tubo de respiração.

O decretado Estado de Emergência tem-lhe estragado as rotinas que se caracterizam, oh! paradoxo, pela sua imprevisibilidade. O morador do 7.ºA lamenta a falta de mobilidade que lhe é imposta. Ainda ontem se viu interrogado por um polícia vitimado por excesso de zelo: “aonde é que vai? Sabe que as pessoas da sua idade devem observar o que foi expressamente determinado…”. Devo estar com uma cara estragada, pensou: tudo por causa dos whatsapp que invadiram o prédio do rés-do-chão ao sétimo piso, tanta gente solidária, tantas comissões informais organizadas por piso eu já
lavei duas vezes o andar e os botões do elevador quatro vezes… Com tanta comunicação ficou evidente que só ele não limpou nada, ele e também a que mora no 6.ºA, uma mulher jovem, recém-chegada ao condomínio, que vive, pelo que deu para perceber em tão pouco tempo, ora sozinha ora acompanhada.

O morador do 7.ºA tem vaidade na sua aparência. Amigos dizem-lhe é pá não te fazes velho! (julga aparentar cinquenta e poucos, menos vinte do que descreve o BI vitalício que ele diz ser imortalício). Às vezes numa loja ultrapassa a fila de clientes, como se fosse fazer uso do privilégio da idade. O senhor está a passar à frente dos outros, não vê! Ah! então mostre lá o cartão de cidadão ou o BI, ah! não o tem consigo então tenha paciência e vá lá para trás!. Ninguém lhe dá a idade dos ossos. Com a dificuldade actual para se fazer compras e o perigo dos ajuntamentos e dos açambarcamentos receia não conseguir renovar o stock de tinta para o cabelo.

Ainda há dois dias se deslocou para longe, a pé, e ninguém o travou ao abrigo da limitação de circulação de idosos. Foi à loja do chinês só para se regozijar com a falta de clientes. Mesquinho e invejoso lembra-se do proprietário, uma excelente criatura, ter morada no prédio, acomodado à condição de condómino; depois comprou uma vivenda enorme, o que encontrou de mais parecido com um pagode chinês, semelhante a uma mansão da Louisiana dos tempos da escravidão sulista nos campos de algodão e tabaco.

De profissão, vive da escrita: no momento tem os pensamentos ocupados na descrição de uma personagem feminina cujos contornos ainda não estão definidos. De preciso só sabe que deve ostentar uns seios magníficos. Seios?! também se pode escrever, conforme o estilo escolhido, mamas, mamocas, maminhas e assim outras de que é apropriado dizer-se: peitos, tem uns peitos…
Como não tencionava voluntariar-se para as limpezas, afixou um letreiro no elevador a oferecer-se para passear os cães domésticos, revelando ser ele o
anónimo que desde há dois invernos abastece duas vasilhas à entrada da garagem, uma para a comida liofilizada para gatos outra para a água; e os pombos oportunistas também desse modo são abastecidos.

Estava a colar a informação quando o elevador se parou no 6.ºA, e a bela condómina fez menção de entrar, ele balbuciou em voz muda se não seria mais aconselhado viajar-se à vez. Ela leu-lhe os pensamentos, entrou e disse “a mim nada me afecta” a acompanhar o gesto. E que gesto! para ilustrar a declaração: de mãos ambas, rápidas, de dedos abertos rodeou os seios. “Aqui, não entra vírus”. Trata-se sem dúvida de uma criatura virulenta e destemida e atrevida. “O senhor é o que está por cima de mim…no sétimo A?”, perguntou, maliciosa.
O habitante do 7.ºA, encontrou no andar de baixo o modelo que tanto procurava. Uma mulher assim com os seios de formato só possível de ser encontrado num pomar. Maminhas da dimensão de pêssegos mas em modo mais alongado como é o feitio das papaias ou de azeitonas, em apresentação miniaturizada. Esta é uma especulação da anatomia feminina criada pela imaginação do morador do 7.ºA. Perfeccionista que é, finalmente alcançou a completa descrição física de todas as personagens. No cérebro febril, as ideias materializaram-se e adensaram-se, tem a cabeça cada vez mais pesada.

O tempo melhorou, faz calor e a vizinha do 6.ºA exibe-se num decote deslumbrante. O vizinho do 7.ºA sabe das horas em que ela vem para a varanda beber o café. Depois do jantar, a luz da varanda acesa, um plateau, só com a levíssima indumentária com que se irá deitar. Irresistível! Ele chega-se ao varandim, só lhe vê os pés descalços a unhas pintadas de madrepérola, está recostada fora do alcance dos olhos do andar de cima, está distraída. O hábito é estar chegada à frente conhecedora da mal disfarçada indiscrição do vizinho.
O homem do 7.ºA está de bom humor, tem passeado os cães, anda livremente por todo o lado, ninguém lhe pede os documentos ou o inquire de razões para tão demoradas passeatas, já garantiu o restaurador da cor do cabelo pelo tempo que se prevê que dure a pandemia. Em casa, na sala, trabalha com um alto rendimento, as páginas de escrita sucedem-se. Tantas ideias, a coisa ascendeu do mesencéfalo, ocupou o diencéfalo, o lobo temporal ultrapassou o corpo caloso, depois o sulco cingulado e comprimiu todo o córtex central. Um peso enorme.

Um intervalo recreativo, vai para a varanda, debruça-se (com a cabeça tão pesada mas tão pesada)
ao estender o pescoço mais um pouco na tentativa de os olhos alcançarem os seios da vizinha, baldeia o varandim, passa pelo sexto andar da descarada, pelo quinto do senhor juiz Albergaria, pelo quarto do engenheiro Rudolfo da ASAE pelo terceiro do jurista Nicolau Soares pelo segundo do Cardoso oficial de Marinha pelo primeiro do fiscal de finanças, esborracha-se na calçada; no fim, no derradeiro instante, morto; despojado das ideias, só lhe resta uma vaga memória do rés-do-chão.

No noticiário da noite deu-se notícia de uma vítima indirecta do Covid19, um homem, morador no Seixal, aparentando cinquenta anos, suicidou-se atirando-se do sétimo andar, deprimido pelo receio da contaminação

Eduardo Palaio
                                                                     

sábado, 15 de fevereiro de 2020


              A PROPÓSITO DA CARTA ABERTA AO ANTÓNIO


Brilhantemente escrita pelo meu amigo Eduardo Palaio
Lembras-te Eduardo?

ERA INVERNO
Donde ele veio não sabia
Apenas sentia o bater nos vidros
Da janela do meu quarto
-vem brincar – gritou ele a medo
Era inverno e chovia
E à chuva fiquei a saber
Que vinha da Figueira
E contou-me do areal
Das ondas, do mar
E partilhámos a vida
Ali no quintal
Da taberna do ti Alfredo.

(Poema meu do livro maresias)
Éramos putos lembras-te? Quantos anos tínhamos? Não sei, tu um ano e pouco mais velho do que eu, fizemos “poemas” ali no quintal da taberna do ti Alfredo, aprendi a pintar contigo, criámos jogos  de tabuleiro, organizávamos jogos olímpicos, fizemos nascer países, o meu era a Míria, o teu já não me lembro, tínhamos equipas de futebol  e campeonatos , cortávamos quadradinhos de papel dos folhetos das agências de viagem, tínhamos jogadores célebres, Esquerdinha  duma equipa tua, Van Doren  era o meu craque.
Lembras-te Eduardo? Do Clube Académico do Bairro, o nosso bairro novo, da rua de cima e da rua de baixo, paralelas e descendo até ao rio?

SEMPRE RIO
Eu não quero navegar
Mas há um rio em mim
Desde a infância
Que me faz olhar o horizonte
O rio entrava-me pelos olhos
Mesmo quando o Sul-expresso
Navegava para Lisboa
Mesmo quando o São Rafael
Partia para a Terra Nova
Que podia eu fazer se a rua
Do meu bairro
Escorregava até ao rio?
Bebi rio e mar e oceano
E as gaivotas não eram
O sinal de tempestade
Que agora se adivinha.

(Poema do meu livro Maresias)
Eu morava na rua de baixo, a Vasco da Gama, tu na rua de cima, no prédio da oficina do José Marques, e que recordações que eu tenho  daí, do Tonecas e do Januário e do José Maria que moravam no primeiro andar, do Rosas(o vacas) e Luis Vasco filhos do veterinário,  e cuja avó a dona Júlia, mais conhecida pela dona Júlia carrapato (éramos férteis em alcunhas) que nos dava lanche depois das brincadeiras. E também os lanches na tua casa, quando estiveste doente, lembras-te Eduardo? E a malta do bairro, quando aos domingos após o futebol dos tempos  do Vitorino, do Tavares (o macaquinha) do Manel da espanhola, do Lenine, do Manel Cambalacho,  do Alfredo Barroqueiro ( quase sempre barraqueiro), iam para o café do senhor  Custódio jogar uma bilharada ou ver a televisão de canal único e de mesa reservada para o senhor Mata funcionário da Mundet, corticeira da rua de cima que empregava metade da nossa gente, a outra metade estava na rua de baixo na Wicânder corticeira sueca. Havia também nestas percentagens erráticas  quem marchasse ou por outra, navegasse rio acima até Lisboa,  rumo aos armazéns do Chiado, do Grandella, da Casa Africana, da Lanalgo ou doutros pequenos comércio espalhados pela baixa lisboeta. Não quero esquecer o Barreiro, da CUF, da CP,   da Escola Alfredo da Silva, do colégio do Seixas, para onde a nossa gente ganhava corpo. E do nosso bairro, lembras-te Eduardo, do Cândido Câmpia, filho do barbeiro, do Borruga, do José João “Peyroteu”  do Pocariça, do Nélson Godinho, do Eugénio Godinho, do Fernando  ( tuberculoso) , do Carlos Perdigão (senhor doutor) filho do dono do café golo, ali bem junto ao campo do bravo, onde outras memórias se avivam. Quantos jogos de futebol de onze, de basquetebol, de futebol de salão, se fizeram? Lembras-te do Fanoca, do Joel, do José Augusto, do José António, malta do basquete? E do Quitas,  e do Luis Silveira (o sucatas) ? E do onoro, do clarica, do Necas,  do Carvalho, jogadores da bola do nosso Seixal Futebol Clube ? E cá do bairro levados pelo Hóquei em patins para o Grupo Desportivo Mundet, o Carlos chagas, o José João Marques, o meu irmão Carlos Alberto mais conhecido pelo Bétinho ou ainda pelo Velez que acompanhados pelo grande Leonel, Nhéu o “marreco” atingiram posição de relevo , lembras-te Eduardo? O nosso bairro Eduardo, não tinha “Jamaicas”  era calmo, acolhedor, escorria para o rio onde havia fragatas, nadavam golfinhos, nadava a nossa rapaziada na praia dos tesos. No nosso bairro pelas ruas esguias e compridas vivia o Aníbal sapateiro, o lugar do Zé borracho, o café do senhor Custódio, a mercearia do senhor Pio, o largo do chafariz, o café do José António,  o boteco do Francelino, sapateiro e político nos intervalos, que ensinava esperanto e outras ideias que o levaram mais tarde a outras paragens do estado novo. Outras ideias que ouvia do senhor Canelas, pai, musicais e não só, do Bruce, incansável  ideólogo do núcleo de campistas do bairro, do Canelas, filho, o Teodoro,  que enveredou mais tarde pela rádio Baía, do  Nélson, meu antigo companheiro de viagem  para a escola Alfredo da Silva. Lembras-te Eduardo, do Esmeraldo Carocho, o Lhau,  basquetebolista e guarda-redes das nossas equipas? do Raúl Carocho defesa do Seixal  e dos nossos solteiros e casados?  Do Leopoldo Casanova  e do Marimon, e do José Guilherme o”galhetas”,  e do Hildefonso,  chauffer da Wicânder, pai do João que brincava comigo  e com um Batáglia o tal que vive em África  e está nas bocas do mundo? Família Batáglia cujo pai era alfaiate, na vila, e onde Fernando, filho aprendeu o ofício, mas o Carlos, filho também, se virou para outros lados? Lembras-te do “chibinho” e do grupo “os arrebentas”? E do Adelaidinha, roupeiro no G,D. Mundet?  E do “arre e porra”? E daqueles que vinham da vila jogar à bola cá para o campo do bravo , o Biau ou o Porfírio filho do “vai-te-vai-te"? Como posso eu esquecer o menino que veio da Figueira e me bateu à porta e em  Outubro de 1967 estava no cais da fundição a dar-me um abraço, junto ao navio Niasssa, quando eu partia para terras de África ?

                                                                                                                         JÚLIO  MIRA


sábado, 9 de março de 2019

                             Não ligues ao que leste, António.


Carta aberta ao meu amigo António Alves Augusto;
que partilhou comigo a guerra colonial em Angola, durante dois anos, ambos como alferes milicianos.
Caríssimo Augusto,
a propósito do teu telefonema, para teu melhor esclarecimento resolvi escrever este texto. Não ligues ao que leste, ouviste ou viste; é tudo “fake”. Aqui o Seixal está em paz, acolhedor e recomenda-se: nada de assassínios, de violadores, ladrões e outros, e outras coisas que tais. Nada de tiros, facadas ou dentadas.
Lembras-te do Seixal que eu te contei, nos longos dias de Angola da tropa obrigatória. A gente de que te falei é ainda a mesma, podem ser outras as caras, passaram cinquenta anos, mas é planta do mesmo chão.
Ainda a propósito do teu reparo há aqui quem reclame do presidente da câmara municipal, e do presidente da junta de freguesia, uma tomada de posição que esclareça que no Seixal povoação sede do concelho, não aconteceu nada de menos recomendável. Comerciantes receiam que o número de visitantes diminua ainda que o rio continue com as marés, as meninas alindem o sorriso, o sol faça o seu colorido pelas ruas e pinte o reflexo dos barcos ancorados; e protestam e exigem uma reparação nos telejornais. Para que servem os eleitos? Eles que esclareçam que o sangue derramado é de Corroios, da Amora, das Paivas, da Cruz de Pau ou da Quinta da Boa-Hora!
É evidente, Augusto, que o presidente da câmara, ou o presidente da junta (ainda por cima da “união de juntas”), não pode fazer tal correcção. Tás a ver um a dizer “aqui no Seixal, sede do concelho nunca tal acontecerá, venham visitar-nos, as selvajarias ocorridas não têm nada a ver com o Seixal (leia-se a antiga vila)”. E a propósito, num transporte irreflectido de sinceridade talvez até dissesse o autarca, “para que fomos dar, ao Seixal, o nome de cidade?…”
Imagina, Augusto, um outdoor: “garantimos segurança a quem visita o velho povoado do Seixal, quanto ao resto…”
O autarca não pode e eu se estivesse no lugar dele, faria o mesmo, O presidente é presidente de todos, não pode fazer discurso discriminatório ou equívoco. Mas eu posso. Um seixaleiro pode. Pode dizer “aqui não!” com a mesma convicção de quem dizia “esse não!” (a propósito do bolsonaro)… mas com melhores resultados.
Isto sou eu a falar contigo, e tu conheces-me: eu não acho que o resto do concelho seja composto por vândalos, mas o Seixal é o Seixal. Lembras-te, tu a falares da tua Vila Real-de Trás-os-Montes e eu dos meus quinhentos metros de comprido (da fábrica à oficina do Zé Silveira) por oitenta metros da maré à barreira onde se encosta a rua de trás. Tão pacífico, O Seixal, que até se fechou a prisão e se venderam as grades ao ferro-velho; por falta de inquilinos e, quando os houve era gente de pilha-galinhas, como o Ladrão-Alto, o Pinho ou o Texugo, este por andar a gritar no Largo da Igreja “morra o salazar”… e o Quirino à espera dos noivos, por causa dos bolos.
Em tão pequeno território delimitado a norte pelo rio, não se pense que vivia pouca gente. Só colectividades eram oito, eu contei-te Augusto: três delas desportivas, três recreativas, uma cooperativa de consumo com mais de quinhentos sócios e um clube de
campismo. Oito bibliotecas e um cinema privado. Entre directores, seccionistas, músicos, atletas, actores, põe nisso umas quatrocentas criaturas. Tanta gente (marido, mulher, filhos avós, sogros) por cada casa, que mais à vontade de espaço se estava fora de porta. Homens operários, mulheres operárias, e mais gente do mar. Quatrocentos com reuniões semanais, que discutiam, propunham votavam e eram eleitos. Esta banalidade de vida, das colectividades, por contraste, fazia sobressair a ditadura, onde não havia debate, nem eleições, nem opinião diversa.
Lembras-te Augusto de o Coronel perguntar de onde éramos?
− Vila Real de Trás-os-Montes” – respondeste.
− Gente verdadeira, gente frontal, rude, mas de boa cepa, gente portuguesa” – comentou o oficial superior.
− Seixal!” – respondi na minha vez.
− Isso não é tudo vermelhusco ó nosso alferes?
− Gente mais civilizada, meu coronel… mais culta.
Tão apertados estavam, casas pequenas, ruas estreitas. Aprendeu-se a viver sem pisar. A ordem espontânea das coisas, a racionalidade necessária, a entreajuda praticada na fábrica de centenas de operários. Os camaradas pescadores (na tropa é que se dizia, lembras-te Augusto, colegas são as putas! Aqui somos camaradas!), o que lá se aprende, no mar, o espaço apertado e perigoso de um barco que pesca ao largo e que só vem a terra pelo Natal e pelo São Pedro. Muito devotos a S. Pedro aqui no Seixal. Com muitos santos na procissão e foi assim todos os anos menos um porque um excessivo e zeloso presidente da Câmara, no tempo da República, fechou na cadeia os santos e os andores. Lá está! pouco uso se dava à cadeia para encarcerar gente de carne e osso: moradores pacíficos, a viver sem pisar. A mãe na fábrica, o pai na fábrica, os avós no cemitério ou ainda na fábrica ou no mar: vira-te!
Alguns, poucos, da pequena burguesia, como os meus pais, classe média-baixa como se diz hoje, mais uns artesãos, mais os caixeiros e uns funcionários. E um regedor, e dois polícias, um, o chefe do outro, o Caldeira, com duas filhas boas, ironia do destino.
Ninguém joga, ninguém brinca sozinho, e dança: houve tempos em que as da Sociedade Velha eram as mais giras, depois mudou, passaram as ser as da Sociedade Nova. Os da “Velha”, da Timbre, eram e são os Franceses (Sociedade Filarmónica Democrática, no nome mais completo); os da “Nova”, da União, intitulam-se de “Os Prussianos”. Rivais, cada uma com a sua banda de música. No 25 de Abril, há 45 anos, saíram à rua a tocarem juntos. A cooperativa era de nome completo: Cooperativa Operária de Consumo 31 de Janeiro de 1911!
Em cada recanto um jogo da bola, sem árbitro. Faltas, penalties e offsides, tudo decidido em consenso. Mais uma aprendizagem de civilidade: sem os outros não há jogo!
Cresciam os filhos, casavam, mais apetrechados para o emprego, melhores salários, gente nova, necessidade de mais ruas e mais casas. Aumentou o Seixal para o Bairro Novo”, para lá do cemitério que sempre se situa fora de portas. Na parte alta cresceu o bairro, como outro Seixal, feito primeiro ao comprido e depois alargado. Casas de banho e outros luxos, até um prédio com elevador, e depois vivendas. Jovens que
estudaram, portadores de mais informação, melhores empregos, a maioria deles um pouco menos cultos do que os pais.
Este povo que te descrevo, Augusto meu amigo, é o de há quarenta ou cinquenta anos. Já não há operários e os pescadores contam-se com os dedos. A cooperativa fechou. Mas o rio permanece, o sol nasce e põe-se do mesmo lado e provoca as mesmas sombras, e as mesmas cores: azul cinza pela madrugada, cerúleo ao meio dia, ouro e prata as águas a caminho fim do dia. E da virada do vento e do nevoeiro. E as palavras nas mesmas ravessas e travessas. Tudo radiações, elixires, perfumâncias… aí é que bate o ponto. A questão é essa. A gente já não é a mesma, muitos morreram, mas o ar ficou (a respiração deles). É coisa que ficou agarrada às paredes. Contaminam tudo: os filhos dos que estavam cá, os filhos deles e os que chegam de outros lados.
É como um baptismo mágico!
Vou-te escrever, a seguir, uma lista reduzida de algumas das alcunhas, da gente de que te venho falando e tu dir-me-ás se gente com tais alcunhas alguma vez poderia cometer, as atrocidades que foram relatadas na televisão:
Eugénio da Ratada, Xanuá, Come-Nada, Fadista, Texugo, Zarolho, Achorda, Alfinetes, Afasta-Afasta, Arroz-Doce, Bald’água, Bate-asas, Berruga, Bicho-mau, Boguinhas, Boca Grande, Xico Burro, António Burro, Cabeça de Bico, Cafeteira, Cága-Apitos, Cagão, Capachila, Xotinha, Caralha-Sem-Tempero, Caralho-Sem-Pescoço, Chumbaca, Chouriço, Coça, Dois olhos, Estraga, Fato Preto, Fominha, Ganança, Gadelha, Góni, Júlio dos Ovos, Joaquim da Balbina, Lambão, Lobisomem, Macarrão, Má-Olha, Mamalhuda, Mijão, Mosca, Pandulha, Pardal, Pé-de-Moca, Pêssego, Pintelho, Rata, Rateta, Santola, Slija, Slanca, Tapum, Toca-o-Hino, Vaca Mula, Vai-te Vai-te, Góni.
Leste Augusto? O “Bicho-Mau”, aliás uma família, eram só malucos não faziam mal nenhum, e o “Lobisomem” nunca assustou ninguém. Só não ponho as mãos no lume pela “Afasta-Afasta” que conheci mal, era um GNR com mau feitio, dispersador de ajuntamentos.
Até os escuteiros, nos tempos de agora abriram casa em quatro lados, como abelhas atraídas por papoilas.
Despeço-me com um abraço e se o teu genro continua a chatear a tua filha, manda-o para cá. Uma semana ou duas no máximo deve chegar; digo duas porque convém que ele apanhe as águas-grandes. Depois vendo a tábua das marés eu digo-te.
Outro abraço.

Eduardo Palaio  ( Também tive a alcunha de marroquino )

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Trásdaponte - Exposição

                                                O Seixal está dentro da cabeça de cada um.
                                                impresso em modo que nenhuma selfie poderá
                                                reproduzir. O Seixal, para mim, é luz e traço.
                                                Isto que vos apresento é o que coleciono nos
                                                nos meus olhos.

                                                Eduardo Palaio

Exposição de 80 desenhos em formato reduzido.
Dia 17 de Novembro às 17h no Café PróRio na
antiga fábrica dos pirolitos do excelentíssimo Manuel Varino

domingo, 28 de outubro de 2018

Trásdaponte - Pavilhão Desportivo



                                                   PAVILHÃO LEONEL FERNANDES
                                                             ESTÁ  EM  MARCHA

Quiosque - Seixal


                                         
                                             A ESPERANÇA É ÚLTIMA A MORRER

terça-feira, 10 de abril de 2018

Trásdaponte - A NÊTA - Livro de Adelino Tavares


Novo livro de AdelinoTavares " A Nêta ".
Um roteiro sentimental pelas várias colectividades
do concelho do Seixal.

Poderá encontrá-lo nos seguintes locais:

- Papelaria Francisco, ex-Falua, Jardim do Seixal
             - Papelaria Lena Calqueiro, ao lado do cinema S. Vicente
    - Papelaria " Miga " no Largo Mundet, Bairro Novo
- Papelaria Izita, na rotunda da Torre da Marinha

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Trás da Ponte - Encontro de Bandas




Banda da Timbre Seixalense, participando no Encontro de Bandas
no dia 29 de Outubro de 2017.

Fotos de Artur Marques


terça-feira, 13 de junho de 2017

Trásdaponte - Será que o Nosso Quiosque corre perigo ?

Quiosque como se apresentava nos últimos anos

Estado actual do Quiosque 10 - 06 - 2017

Quiosque bem enquadrado, por uma árvore bonita.

Os braços da árvore foram cortados. Deixou de haver
enquadramento para o Quiosque.


Como sabem, este blogue, fala de gente e estórias de Trásdaponte.
No entanto, não podemos ficar indiferentes a um Ex-Libris
do Seixal que, a avaliar pelo seu estado actual, penso estar
em risco de se finar. Se assim não fosse, devia estar devidamente
protegido, para mais tarde, iniciar a sua recuperação.

Foi seu construtor, Eufrázio José, seixalense de gema, ferroviário
de profissão e, nas horas vagas clarinetista na União Seixalense.
Estávamos no início do séc. XX.

A minha memória não vai tão longe. Frequentador, nos anos 40, da
escola Conde Ferreira com o professor Silva e mais tarde,
4ª classe, na escola da "Baixinha", má como as cobras, já mais
perto do quiosque. Resumindo-se as minhas idas ao quiosque
para comprar "pirolitos", bebida açucarada do agrado dos miúdos
e graúdos.
Turma da 4ª classe e frequentadores do Quiosque na óptica
do pirolito.
Lá estou eu, o Quintino o Aragão o Nelson careca e o Nelson
choriço o Chaves o Álvaro o Fernando coisinha o Óscar o Victor
Lagos o " bacalhau é uma planta" o "chora" a "baixinha" e os

seus bambinos. etc. etc.

Tudo gente que ficará com pena de ver o Quiosque desaparecer.

Será que o Museu da Câmara Municipal, não tem uma palavra a dizer.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Trásdaponte - Histórias & Memórias Fotográficas



Próxima sessão pública 25 de Maio
5ª feira pelas 17,30 na sala de leitura do
Centro de Documentação e Informação
do Ecomuseu Municipal do Seixal no
Núcleo da Mundet.

Comparece!


Clique na imagem para ampliar

sexta-feira, 31 de março de 2017

Trásdaponte - Praça antiga

Largo da Praça - Seixal

Na déc. de 80 do séc. XX, era assim o mercado aos sábados
de manhã. Em segundo plano o antigo mercado.

Foto de Fernando Rocha

quarta-feira, 29 de março de 2017

Trásdaponte - Elso Roque



Já aqui no Trásadaponte, falámos de Elso Roque, um Trásdapontense
nascido na rua dos Valentes em 1939.
Voltamos hoje, para o felicitar, por ter recebido o prémio
"Sophia 2017" ( prémio carreira ).Atribuído pela Academia
Portuguesa de Cinema.

Parabéns Elso

 

segunda-feira, 20 de março de 2017

sábado, 10 de dezembro de 2016

Trásdaponte - Almoço





Eles aí estão. Mais uma vez o Grupo de Amigos de Trásdaponte,
em convívio numa grande almoçarada. Segundo rezam as crónicas,
da ementa fazia parte um tacho de arroz de cabidela, já cá tomara.
No fim, segundo dizem, houve fados e guitarradas.

Pelas minhas contas, agora na época das "festas" vai ser sempre
a abrir.
Bom proveito.
 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Trásdaponte - Noite Sevilhana


Timbre Seixalense, déc. de 50 do séc. XX.

Baile na Timbre "Noite Sevilhana".

Esta foto já foi publicada no Trásdaponte em 2011.

Impõe-se novamente a sua publicação,como forma de
prestar homenagem a Portugalina Tavares


Clique na imagem para ampliar

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Trásdaponte - Almoço de Amigos




Mais um almoço dos amigos de Trásdaponte.
Dizem que foi cozido à portuguesa.

Pelas fotos enviadas,devem estar no início, como acabou
não sabemos.